ECONOMIA

CNJ e Banco Central avançam em rastreabilidade de precatórios e mercado pode ganhar nova camada de segurança

A compra e venda de precatórios no Brasil caminha para ganhar uma nova camada de controle. O Conselho Nacional de…

A compra e venda de precatórios no Brasil caminha para ganhar uma nova camada de controle. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Banco Central avançaram em agosto na construção de uma sistemática nacional de registro, rastreabilidade e controle das cessões de créditos de precatórios, iniciativa que pretende permitir o acompanhamento da titularidade desses ativos desde a negociação até o efetivo pagamento. A Portaria Conjunta nº 6, publicada em agosto, criou um Grupo Executivo Interinstitucional com participação do CNJ e do Banco Central para estruturar os aspectos normativos, tecnológicos e operacionais do novo modelo. Entre as atribuições estão a discussão de regras para as cessões e a definição de requisitos de governança, segurança, interoperabilidade e supervisão para entidades que atuem no registro eletrônico dessas operações. A iniciativa prevê integração com a Central Nacional de Cessões de Créditos de Precatórios, vinculada ao Sistema Nacional de Precatórios e Requisições de Pequeno Valor, o SisPreq. A proposta é integrar informações hoje distribuídas entre tribunais, cartórios e outras entidades autorizadas, formando uma cadeia mais rastreável sobre quem é o titular do crédito em cada etapa. Poucos dias depois, em 17 de agosto, o CNJ e o Colégio Notarial do Brasil firmaram um Termo de Cooperação Técnica para o desenvolvimento do SisPreq e para a criação do Portal Nacional das Cessões de Crédito, ferramenta que deverá ampliar a transparência das operações envolvendo precatórios. Para Marco Antonio Galera Mari, Sócio-Diretor da Galera Mari Advogados, escritório com 40 anos de atuação, a iniciativa pode representar um passo relevante no amadurecimento do mercado de ativos judiciais. “A possibilidade de acompanhar de maneira mais estruturada a cadeia de titularidade de um precatório tende a reduzir uma das principais zonas de risco dessas operações. Quando um investidor compra um crédito judicial, ele não está avaliando somente o valor de face ou a expectativa de pagamento. É necessário saber quem é efetivamente o titular, quais cessões já ocorreram, se há penhoras, honorários, compensações ou outras restrições que possam atingir aquele ativo”, afirma Galera Mari. Pelas regras atualmente vigentes do CNJ, o beneficiário de um precatório pode ceder total ou parcialmente seu crédito a terceiros independentemente da concordância do ente público devedor. A cessão, entretanto, alcança apenas o valor efetivamente disponível após considerar fatores como contribuições, honorários advocatícios, penhoras registradas, compensações e cessões anteriores. Após a apresentação do precatório, a transferência precisa ser comunicada ao tribunal e registrada após análise da documentação. A complexidade da cadeia ajuda a explicar a preocupação com a rastreabilidade. Em parecer publicado neste ano, o próprio CNJ registrou discussão envolvendo exigências adicionais adotadas pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro depois da identificação de práticas fraudulentas relacionadas ao levantamento de valores de precatórios. O caso evidencia como problemas documentais ou na identificação do titular podem gerar disputas mesmo em um crédito judicial já reconhecido. Segundo Gerson da Silva Oliveira, Sócio-Diretor da Galera Mari Advogados, um sistema nacional pode facilitar a diligência, mas não substitui a análise jurídica individual de cada ativo. “Rastreabilidade é uma ferramenta de segurança extremamente relevante, mas não elimina a due diligence. O registro pode ajudar a mostrar a trajetória daquele crédito, porém o investidor ainda precisa verificar o processo de origem, a documentação da cessão, eventuais constrições, a natureza do precatório, questões tributárias e todas as circunstâncias capazes de alterar o valor efetivamente disponível para aquisição e recebimento”, explica Oliveira. A discussão ocorre justamente em um momento de revisão mais ampla das regras nacionais sobre precatórios. O CNJ marcou para 9 de setembro uma audiência pública destinada a discutir o aprimoramento da disciplina nacional. O encontro será dividido em três eixos: uma nova resolução geral para substituir a Resolução nº 303/2019, a criação de uma Política Judiciária Nacional de Tratamento Adequado dos Precatórios e a definição de parâmetros gerais para cessões de créditos. As inscrições de interessados em participar como expositores ficam abertas até 31 de agosto. O movimento regulatório também é consequência das mudanças constitucionais recentes. A Emenda Constitucional nº 136/2025 modificou o regime de pagamento de precatórios e estabeleceu, entre outros pontos, limites escalonados de desembolso relacionados à receita corrente líquida e ao estoque de precatórios em mora dos entes devedores. Desde então, o CNJ vem trabalhando na adequação das normas administrativas ao novo cenário. Para Galera Mari, maior padronização tende a beneficiar tanto titulares interessados em antecipar seus recursos quanto investidores. “Um mercado funciona melhor quando existe clareza sobre o ativo negociado. Quanto maior a segurança em relação à titularidade, às cessões anteriores e às restrições existentes, menor tende a ser a assimetria de informação entre comprador e vendedor. Isso pode contribuir para operações mais profissionais e para uma precificação de risco mais consistente”, diz. Oliveira ressalta, porém, que a maior institucionalização do mercado também aumenta a necessidade de rigor. “A existência de ferramentas tecnológicas não transforma todo precatório automaticamente em um ativo seguro. O crédito continua tendo uma história processual e jurídica própria. O investidor que ignorar essa etapa pode comprar um direito com valor econômico diferente daquele que imaginava adquirir”, acrescenta.

Perguntas frequentes

Respostas institucionais sobre esta cobertura, fontes e limites editoriais.

Sobre o que trata “CNJ e Banco Central avançam em rastreabilidade de precatórios e…”?
A compra e venda de precatórios no Brasil caminha para ganhar uma nova camada de controle. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Banco Central avançaram em agosto na construção de uma sistemática nacional de…
Por que Economia importa agora?
O tema impacta decisões e debates cotidianos ligados a Economia. A redação destaca fatos, datas e implicações práticas sem substituir orientação profissional personalizada.
Quem edita o conteúdo do Estrato Agro?
A cobertura é produzida e revisada pela equipe editorial do Estrato Agro, com editor-chefe responsável pela linha editorial. Conheça a redação em https://agro.estrato.cc/equipe/.
Quais fontes o Estrato prioriza?
Priorizamos fontes primárias (órgãos oficiais, balanços, estudos revisados, documentos públicos) e cruzamos informações antes da publicação, conforme a política editorial.
Como solicitar correção de uma matéria?
Envie o pedido pela página de Correções (https://agro.estrato.cc/correcoes/) ou Contato (https://agro.estrato.cc/contato/). Erros materiais são corrigidos com registro da atualização.
O conteúdo constitui aconselhamento profissional?
Não. As matérias têm caráter informativo e jornalístico. Decisões financeiras, de saúde, jurídicas ou educacionais devem considerar profissionais habilitados e a sua situação particular.
Onde acompanhar a política editorial do Estrato Agro?
Metodologia, ética e transparência estão em https://agro.estrato.cc/metodologia/, https://agro.estrato.cc/etica-editorial/ e https://agro.estrato.cc/politica-editorial/.
Como o Estrato trata temas sensíveis (YMYL)?
Temas que afetam dinheiro, saúde e bem-estar recebem revisão editorial reforçada, disclaimer visível e links para páginas institucionais de metodologia e correções. Portal: https://agro.estrato.cc/
WhatsApp X LinkedIn
Compartilhar: LinkedIn
Mariana Duarte

Mariana Duarte

Mariana Duarte integra a equipe editorial do Estrato Agro, vertical da rede Estrato, na função de Repórter — Estrato Agro. O escopo permanente de cobertura inclui cobertura editorial de Estrato Agro, com atenção ao leitor brasileiro que busca contexto factual, datas oficiais e implicações práticas. Na produção diária, prioriza fontes primárias (órgãos públicos, balanços, papers e documentos oficiais), cruza pelo menos duas referências independentes quando o tema é contestado e evita manchetes que prometam certeza onde há incerteza. Critérios de qualidade: lead com o fato principal, atribuição clara de autoria da equipe Estrato, atualização com selo quando há mudança material e linguagem acessível sem simplificar demais o risco ou o contexto. Trabalha sob revisão da mesa editorial e do editor-chefe do portal. Matérias YMYL recebem segunda leitura antes da publicação e podem ser atualizadas quando surgem novos dados oficiais. Limites: este perfil descreve o papel editorial na marca Estrato. O conteúdo publicado é informativo e não constitui aconselhamento médico, financeiro, jurídico ou profissional personalizado. Transparência ao leitor: metodologia em /metodologia/, ética em /etica-editorial/, correções em /correcoes/, equipe em /equipe/ e canal em /contato/ ([email protected]). Na página-mãe da rede, a bio ampliada e o arquivo de matérias ficam em estrato.cc/blog/, com link para o arquivo do autor em cada portal.

Deixe um comentário