ECONOMIA
Ativista feminista Gloria Steinem morre aos 92 anos
Gloria Steinem, escritora, palestrante, ativista e organizadora americana que lutou pela igualdade de gênero e pelos direitos civis e reprodutivos…

Gloria Steinem, escritora, palestrante, ativista e organizadora americana que lutou pela igualdade de gênero e pelos direitos civis e reprodutivos das mulheres por mais de cinco décadas, morreu aos 92 anos, segundo informou sua fundação. A cofundadora e editora consultora da ‘Ms. Magazine’ defendeu o movimento feminista a partir do fim da década de 1960 e inspirou gerações de mulheres. “De porta-voz relutante a um farol de mudança positiva, a trajetória dela é singular — uma líder americana capaz de falar com todos nós”, disse a diretora de cinema e teatro Julie Taymor sobre Steinem em uma entrevista de 2017 ao New York Times. Taymor dirigiu o filme de 2020 ‘The Glorias’, que retrata a vida de Steinem ao longo dos anos e baseia-se em sua autobiografia de sucesso de 2015, ‘My Life on the Road’. Ela também foi tema de uma peça de 2018, ‘Gloria: A Life’, e de um documentário da HBO de 2011, ‘Gloria: In Her Own Words’. Steinem dizia considerar-se “uma empreendedora da mudança social”. “Quero fazer justiça às mulheres que conheço, contar as histórias delas”, disse ela à revista ‘New Yorker’ em 2015. “Trata-se de criar conexões e de me colocar à disposição para ouvir, pois não podemos empoderar as mulheres sem ouvir suas histórias.” Steinem fundou o National Women’s Political Caucus em 1971, juntamente com as ex-deputadas americanas Bella Abzug e Shirley Chisholm e a escritora Betty Friedan, cujo livro de 1963, ‘A Mística Feminina’ (‘The Feminine Mystique’), inaugurou a segunda onda do feminismo. Entre outros grupos, ela também criou a Coalition of Labor Union Women, o Women’s Media Center, o Voters for Choice e a Ms. Foundation for Women. Em 2013, o então presidente Barack Obama concedeu-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil dos EUA. Com seu visual característico — cabelos longos repartidos ao meio e com mechas loiras, além dos óculos estilo aviador —, Steinem era o símbolo glamoroso e moderno do movimento feminista, o qual, segundo ela enfatizava, deveria abraçar mulheres de todas as raças. “Se você sofreu discriminação, torna-se sensível a ela em todos os níveis. Aprendi sobre feminismo principalmente com mulheres negras. Mulheres não brancas basicamente inventaram o feminismo”, disse ela à ‘New Yorker’. Histórico Steinem nasceu em 25 de março de 1934, em Toledo, Ohio, sendo a mais nova de duas filhas. Seu pai era um negociante de antiguidades itinerante. Como a família se mudava com frequência, ela não frequentou a escola regularmente até por volta da sétima série. Seus pais se separaram quando ela tinha 11 anos; após isso, Steinem passou a viver com a mãe e a cuidar dela, visto que a mãe havia sofrido um colapso mental e sofria de depressão. Essa experiência influenciou a visão de Steinem sobre injustiça social e casamento — instituição que, em sua opinião, privava as mulheres de fazerem suas próprias escolhas e de muitos de seus direitos civis. “Eu já havia sido a ‘mãe’ muito pequena de uma ‘filha’ muito grande: minha própria mãe. Eu não queria acabar cuidando de outra pessoa”, disse ela, segundo relatos. Após se formar no Smith College, Steinem começou a trabalhar como jornalista freelancer. Em 1963, ela trabalhou como “coelhinha” da Playboy por 11 dias para uma matéria da revista ‘Show’. Sua reportagem investigativa pioneira, publicada em duas partes sob o título “A Bunny’s Tale” (O Conto de uma Coelhinha), detalhava os baixos salários e o tratamento sexista a que as coelhinhas da Playboy — originalmente integrantes da equipe de atendimento — eram submetidas. A história foi adaptada para um telefilme em 1985, estrelado por Kirstie Alley. Em 1968, Steinem ajudou a fundar a revista ‘New York’; nela, seu artigo intitulado “After Black Power, Women’s Liberation” (Depois do Black Power, a Libertação das Mulheres) consolidou sua posição como líder feminista em um período de intensas transformações sociais. No entanto, foi somente no ano seguinte, ao participar de um evento em uma igreja de Nova York onde mulheres compartilhavam abertamente suas experiências com o aborto, que Steinem — que havia feito um aborto (então ilegal) em Londres aos 22 anos — sentiu que sua vida como ativista feminista realmente começava. A revista ‘Ms.’, que ela cofundou em 1971, abordava o aborto e outras questões como sexismo, igualdade salarial e violência doméstica — temas muito diferentes daqueles que dominavam as revistas voltadas para o público feminino na época, como beleza, culinária e dicas sobre como apoiar o marido. Uma das primeiras edições publicou os nomes de 52 mulheres — incluindo Steinem — que haviam feito abortos e defendeu a legalização do procedimento, antecipando a histórica decisão do caso ‘Roe v. Wade’, de 1973, que reconheceu o direito constitucional das mulheres ao aborto nos EUA por quase meio século. A quintessência da revolução feminina Steinem frequentemente criticava as limitações do casamento. “As mulheres não serão iguais fora de casa enquanto os homens não forem iguais dentro dela”, disse ela. Ela não teve filhos e só decidiu se casar aos 66 anos — com o empresário e ambientalista sul-africano David Bale, pai do ator Christian Bale. “Espero que isso prove o que as feministas sempre disseram: que o feminismo trata da capacidade de escolher o que é certo em cada fase de nossas vidas”, disse ela em um comunicado sobre o casamento. David Bale morreu de câncer no cérebro em 2003. Steinem continuou trabalhando mesmo após completar 80 anos. Ela escreveu diversos livros, incluindo ‘Marilyn: Norma Jean’ (1986), sobre Marilyn Monroe; ‘Revolution from Within: A Book of Self-Esteem’ (Revolução Interior: Um Livro sobre Autoestima), sobre desenvolvimento pessoal; além de coletâneas de ensaios. Ela idealizou e narrou um documentário vencedor do Emmy sobre abuso infantil, ‘Multiple Personalities: The Search for Deadly Memories’, para a HBO em 1993, e produziu o filme ‘Better Off Dead’, do canal Lifetime. Também apresentou ‘Woman’, uma série documental sobre violência contra a mulher, para o canal de TV Viceland. A autora Carolyn Heilbrun — que escreveu a biografia de 1995 ‘Education of a Woman: The Life of Gloria Steinem’ — descreveu-a como “o epítome da beleza feminina e a quintessência da revolução feminina”.
Perguntas frequentes
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