INTERNACIONAL
Erosão do centro político da Alemanha expõe enfraquecimento de Merz no poder
A ultradireita e a esquerda radical da Alemanha registraram fortes avanços nas eleições estaduais de domingo, expondo mais uma vez…

A ultradireita e a esquerda radical da Alemanha registraram fortes avanços nas eleições estaduais de domingo, expondo mais uma vez a erosão do centro político na maior economia da Europa, assim como o enfraquecimento do controle do primeiro-ministro Friedrich Merz sobre o poder. A Alternativa para a Alemanha (AfD), contrária à imigração, confirmou sua força nos Estados do leste que integravam a antiga Alemanha Oriental ao ficar em primeiro lugar em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, ampliando o impulso após seu triunfo de duas semanas atrás na Saxônia-Anhalt. A sigla de ultradireita também registrou seu melhor resultado da história em Berlim, onde o partido de esquerda radical A Esquerda (Die Linke) ficou em primeiro lugar e deve substituir a conservadora União Democrata-Cristã (CDU), de Merz, na prefeitura. Merz classificou o resultado em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental — o pior da história da CDU — como “um desastre”. Mas contrariou as especulações de que poderia renunciar, prometendo permanecer no cargo para aprovar um pacote de reformas tributárias e previdenciárias que, espera, ajudará a reanimar a enfraquecida economia alemã. Por enquanto, ao menos, o partido se manteve ao lado dele, embora o resultado aumente a pressão dentro de sua coalizão com o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, cujos integrantes, em parte, querem atenuar alguns pontos da agenda de reformas. “Temos de analisar, como governo, por que existe essa sensação de incerteza no país”, disse Lars Klingbeil, copresidente do SPD. Uma sensação generalizada de mal-estar econômico e de desilusão com os partidos políticos tradicionais aponta para novas turbulências pela frente, com uma série de eleições estaduais previstas para o próximo ano no oeste da Alemanha. “A Alemanha está entrando em um período de instabilidade política em que se torna cada vez mais difícil formar coalizões viáveis, e isso não é um bom sinal para a Europa quando a Alemanha é a líder de fato”, disse Sudha David-Wilp, pesquisadora sênior do German Marshall Fund of the United States. A AfD quer expulsar estrangeiros que não tenham direito de permanecer na Alemanha, restabelecer os laços energéticos com a Rússia e abandonar o euro, enquanto o partido A Esquerda quer limitar os aluguéis e estatizar grande parte do mercado imobiliário de Berlim. Em contraste, a busca de Merz pelo que ele diz serem reformas dolorosas, mas necessárias, ainda não produziu melhorias que os eleitores consigam sentir. “Podemos ver como é difícil conquistar as pessoas quando se está no governo e se parte do centro da sociedade”, disse Stefan Evers, principal candidato da CDU em Berlim. ‘Desastre’ Mesmo antes da eleição, os índices de aprovação de Merz estavam em mínimas históricas, e seu partido aparecia atrás da AfD nas pesquisas nacionais havia meses. “As pessoas nos diziam que, enquanto ele tivesse poder de decisão, não votariam em nós”, disse um integrante da campanha eleitoral da CDU em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Desde o início de seu período no cargo, quando uma votação parlamentar normalmente rotineira para confirmá-lo como primeiro-ministro se transformou em uma humilhação que exigiu um segundo turno de votação, Merz tem enfrentado dificuldades para estabelecer sua autoridade. Houve uma série de gafes, desde dizer que as pessoas na Alemanha precisavam trabalhar mais horas até se definir como integrante da “classe média” quando ocupava o cargo altamente remunerado de presidente do conselho de supervisão da gestora de ativos BlackRock. O primeiro-ministro da Alemanha e líder da União Democrata-Cristã (CDU), Friedrich Merz, reage durante entrevista coletiva após as eleições estaduais, em Berlim REUTERS/Fabrizio Bensch Pesquisas indicam que seus deslizes de comunicação e sua dificuldade para estabelecer uma conexão emocional com eleitores preocupados com seu futuro econômico contribuíram para o resultado das cinco eleições estaduais realizadas neste ano. Mas os profundos desafios econômicos da Alemanha, com uma população envelhecida, crescimento fraco e a erosão de sua base industrial diante da pressão crescente da China, não têm soluções fáceis. As próprias reformas provocaram problemas no leste da Alemanha, antiga região comunista, onde, apesar de mais de três décadas de transformação econômica, uma parcela maior dos eleitores do que no oeste recebe o salário mínimo e depende integralmente da aposentadoria pública. Manuela Schwesig, primeira-ministra de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental pelo SPD, cujo sucesso em limitar os avanços da AfD em seu Estado foi um dos poucos pontos positivos para o governo, disse estar “surpresa” com a recusa de Merz em mudar de rumo. Sua campanha fez duras críticas a Merz, a quem ela acusou de demonstrar indiferença em relação aos eleitores que enfrentam a disparada dos preços dos combustíveis. Schwesig também defendeu mudanças na reforma previdenciária que exigiria que as pessoas trabalhassem por mais tempo — uma questão particularmente impopular no leste, onde muitos não acumularam o mesmo nível de poupança que os moradores do oeste. Cordão sanitário sob pressão Dias antes da votação, à medida que aumentavam as especulações de que sua posição poderia estar ameaçada, importantes líderes da CDU manifestaram apoio ao primeiro-ministro, cientes de que substituí-lo colocaria em risco o programa de reformas sem resolver os problemas subjacentes. Até agora, a política conhecida como “cordão sanitário”, pela qual os principais partidos se recusam a cooperar com a AfD, impediu que a legenda participasse do governo. Mas aumentam as dúvidas sobre se é possível excluir um partido que conta com o apoio de mais eleitores na Alemanha do que qualquer outro. Apesar das ressalvas em relação à cooperação com um partido que possui integrantes classificados pelos serviços de segurança interna como de extrema direita, crescem dentro da CDU os apelos por uma revisão dessa política. “Esse ‘cordão sanitário’ não fez nada pela CDU, e eles precisam pensar sobre isso”, disse Leif-Erik Holm, principal candidato da AfD em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Pesquisas de opinião têm mostrado profunda desilusão entre muitos eleitores com um sistema político que produziu uma sucessão de coalizões entre partidos tradicionais de centro-direita e centro-esquerda que, no passado, eram fortemente antagônicos. Material de campanha da Alternativa para a Alemanha (AfD) próximo à sede da União Democrata-Cristã (CDU), antes de uma entrevista coletiva em Berlim Krisztian Bocsi/Bloomberg Durante o governo da ex-premiê Angela Merkel, a “grande coalizão” entre CDU e SPD, vista apenas uma vez antes no âmbito federal, durante a década de 1960, tornou-se comum. Merz, que já foi visto como um conservador combativo, repetiu a fórmula depois que outra coalizão, liderada pelo primeiro-ministro do SPD Olaf Scholz, entrou em colapso em 2024. “Isso simplesmente abriu um vácuo à direita e à esquerda para que esses partidos surgissem”, disse David-Wilp.
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